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Entrevista feita à mim pelo jornalista Paulo Henrique da Silva para o Jornal Hoje Em Dia de Belo Horizonte, Minas Gerais, no dia 16 de Janeiro de 2011. Entrevista essa que foi usada em conjunto com outros entrevistados para uma matéria para o Jornal. Aqui a entrevista na integra.

1. Como você vê o trabalho de dublagem hoje em dia, com muitos filmes sendo lançados nos cinemas apenas em sua versão dublada? A maior abertura para filmes dublados representou uma valorização da profissão?

 

A maior abertura para o cinema foi uma conquista para a classe e também para os fãs, e o resultado disso foi aparente, as salas com filmes dublados eram sempre as mais pedidas, e acho que não só trouxe uma valorização maior para a profissão como também fez mostrar ao público que temos uma dublagem muito boa no nosso país, aplaudida pelo mundo todo, atores vêem no Brasil para conhecer seus dubladores e muitas vezes elogiam a dublagem mesmo a distância. Também fez cair o mito que a maioria da população prefere filmes legendados, o que foi demonstrado não só no Cinema mais também em canais da tv a cabo que aderiram a dublagem em suas produções que antes eram legendadas. Eu penso que a opção deve ser de cada um e não induzida por um grupo, e cada um deve assistir do modo que mais lhe agrada; legendado ou dublado; mais que conheçam a versão dublada e a apreciem antes de julga-la, e é claro, sempre que houver uma dublagem ruim mandar e-mails para as empresas de dublagem, para as distribuidoras, pois é direito do telespectador e do fã de cinema reclamar do que foi feito para entretê-lo. Outra coisa não menos importante de se falar é a questão dos deficientes visuais que necessitam da dublagem para assistir a obra.

 

2. Outro aspecto nestes lançamentos é que os filmes tem sido dublados por gente famosa, com o objetivo de chamar maior atenção. Em muitos casos, são pessoas que não têm conhecimento de dublagem, com resultados muito ruins. Qual a sua opinião sobre isso?

 

Eu acho que exemplos muito legais nesse seguimento são as produções da Disney, hoje comandadas pelo Garcia Junior representante da Disney na América Latina. Eles convidam muitos profissionais fora do ramo, porem muitos deles já foram dubladores em outras ocasiões ou são profissionais que tem que mostrar bom desempenho, claro que há exceções, mais na maioria eles usam isso como regra. Claro que isso é uma exceção, pois todas as outras distribuidoras chamam gente famosa para seus filmes sem mesmo saberem o que é dublagem. O grande problema é que como nos Estados Unidos que chamam atores famosos para dublar para aumentar a bilheteria do cinema, no Brasil querem fazer o mesmo, mas a grande diferença é que nos Estados Unidos o ator grava primeiro a voz e depois é feito a imagem para essa voz, inclusive apreciem quando se mostra os make off’s das dublagens americanas, nunca mostra o profissional na frente do microfone e a tela do desenho ao mesmo tempo, porque não é mesmo feito assim. E no caso do Brasil é feito por cima da imagem, eles não conseguem ler o texto, ter interpretação e sincronia labial ao mesmo tempo e dá no que dá. É importante as pessoas saberem que a dublagem é uma vertente do trabalho do ator, todo o dublador é ator, mas nem todo o ator é dublador, é uma queda, ou você tem ou você não tem.

 

3. Você aprovou a dublagem de Luciano Huck para "enrolados", que vem sendo muito criticada pelos especialistas?

 

Eu particularmente não cheguei a ver esse filme, mais fiquei sabendo por alto. É como eu disse anteriormente, o profissional que não tem queda não pode ser dublador, mesmo que seja para uma animação aonde a maioria são crianças e pré-adolescentes, elas observam a interpretação e sincronia e guardam isso com elas. No caso do Luciano Huck nem ator ele é, então dificulta ainda mais o trabalho. O problema é que você fala “o ator poderia ter consciência disso e recusar o trabalho”, mas colocam outro em seu lugar, a conscientização deve vir dos distribuidores, ganham mais dinheiro colocando um famoso, sim, ganham, mas o record de ganho é maior que o da interpretação e o do bom trabalho?. O que deveríamos ter no nosso país era o reconhecimento a atores em dublagem que deveriam ser conhecidos amplamente, como Miriam Ficher, Márcio Seixas, Guilherme Briggs, Alexandre Moreno, que são excelentes profissionais e que deveriam ser mencionados em artigos como esse que vocês fazem no jornal Hoje Em Dia, em outros jornais e matérias na mídia, pois quando viesse um filme pro cinema “Enrolados, dublado por Alexandre Moreno”, os fãs conheceriam, saberiam de outros incríveis trabalhos que ele fez e também ajudaria no ganho nos cinemas, mais infelizmente isso é uma coisa que acredito que seja muito difícil de acontecer, um ator de Big Brother que é conhecido a 2 meses leva mais publico pro cinema do que um ator em dublagem de 30 anos de carreira, então é um caso muito complicado esse.

 

4. Quem faz as melhores dublagens de animações atualmente?

 

A Disney e a Dreamworks. Apesar de alguns casos de atores não dubladores não terem feito trabalhos muito bons, alguns foram exceção, como no caso de A Era do Gelo, você percebia que não tinham aquela caída para a dublagem mais tinham uma boa interpretação cômica e tornou o filme bem divertido. A dublagem também de A Princesa e o Sapo que ficou muito boa, disseram que o Rodrigo Lombardi fez uma ótima interpretação, também damos um destaque a Selma Lopes que dublou a personagem Ray no longa, Selma é veterana na área desde os anos 60, dublava e cantava pela Fada Azul de O Pinóquio, hoje com 82 anos arrasou no filme dublando e cantando, com a voz linda que ela tem.

 

5. Como surgiu seu interesse pela dublagem? E por que você resolveu criar um site sobre o assunto?

 

Essa coisa de dublagem é desde pequeno, desde Os Cavaleiros do Zodíaco do qual eu era muito fã do Gilberto Baroli que fazia o personagem Mestre Ares e imitava essa voz em várias brincadeiras minhas. Com a chegada da internet grátis em 2000 eu pude conhecer esses profissionais por nome e foto, pelas reportagens de revistas da época, mais isso só foi se despertar por volta de 2004 quando comecei a ir em eventos de animê e mangá, aonde fazem anualmente o Oscar da Dublagem no evento Anime Friends, e me deparei com esse mundo mais uma vez. Aí comecei a pesquisar, reunir informações, tudo apenas por hobbie e gosto próprio. A vontade de criar o site; apesar de ser um site simples mas modéstia parte com um bom conteúdo; veio por haver muitas informações erradas na internet, nós que somos fãs temos a responsabilidade de creditar as informações e as listas de dublagem com o máximo de certeza possível, e também havia uma falta muito grande de informação daqueles lendários dubladores que fizeram um trabalho quase que artesanal no início da década de 60 e que merecem ser reconhecidos e lembrados, sem eles a dublagem não seria o que hoje, então tudo isso me motivou a criar o site.

 

6. Hoje, com o grande número de estúdios, não há muito a preocupação de um mesmo dublador acompanhar os papéis de um determinado ator, não é verdade?

 

É Verdade. Alem disso também tem a carga horário de trabalho, tem dubladores que tem diariamente 6 horas de trabalho em um único estúdio e isso dificulta dele continuar dublando um ator que sempre dubla, cabe a cada distribuidora e diretor de dublagem examinar isso da melhor forma, e esperar alguns dias o ator estar mais livre, o problema é que com a velocidade que o cliente pede o produto, as vezes nem podem esperar. Outro fator que a maioria das pessoas desconhece é a questão de haver 2 pólos de dublagem no Brasil: Rio e São Paulo, ambos desde os anos 60, então por essa razão todo o ator tem pelo menos duas vozes oficiais. Nos últimos anos temos apreciado que algumas distribuidoras acham importante manter a mesma voz e estão realizando uma espécie de dublagem itinerária, aonde por exemplo o filme é dublado em São Paulo e a voz oficial do ator é do Rio, então o ator grava as falas dele no Rio, são mandadas para São Paulo e mixadas com o resto das vozes paulista no filme. O exemplo mais recente que tivemos disso foi o do filme Os Mercenários, aonde a dublagem foi realizada na Álamo de São Paulo e as vozes de Sylvester Satallone e de Arnold Schwarzenegger; que são respectivamente de Luiz Feier Motta e Garcia Junior; foram feitas no Rio e mixadas com as vozes de São Paulo, um trabalho que merece o nosso aplauso, pois alem do esforço da distribuidora também teve a questão desses 2 profissionais não estarem mais na área de dublagem.

 

7. No caso das séries, as emissoras costumam mudar de estúdio de uma temporada para outra...

 

Não, a não ser que haja uma briga com a empresa ou ela venha a falir, aí é inevitável a mudança. Um exemplo recente que temos foi o da lendária Herbert Richers que estava dublando a novela Isa Tkm, o estúdio fechou as portas no início de 2010, porem o canal ou o distribuidor, não me lembro bem, alugou o estúdio e dublou o resto dos episódios só para ter a marca e os profissionais da Herbert Richers na produção. Está vindo a próxima temporada da novela, mas com certeza essa já deve ter sido dublada em novo estúdio. No caso da série Lost não foi culpa da emissora e sim da própria Disney, que colocou uma clausula na 3ª temporada da série que dizia que os dubladores venderiam seus direitos conexos nos Dvd da Disney por 50 anos, ou seja, não ganhariam nada de direito conexo nos próximos 50 anos de trabalho com a Disney, então a Anad (Associação Nacional dos Artistas de Dublagem), que surgiu no Rio e agora também tem força em São Paulo, não aceitou isso, fazendo a série sair da Álamo e ir para a Herbert Richers, no qual os dubladores do Rio aceitaram isso. Isso que a Disney fez realmente é uma falta de respeito com os profissionais, são atores, teêm que ser pagos por seus direitos conexos que está na lei.

 

8. Outro problema: quando uma série antiga é reexibida na tv, as emissoras fazem uma nova dublagem, perdendo a identificação do espectador com determinada voz...

 

Esse talvez seja um dos maiores problemas existentes na dublagem que rende discussão em diversas comunidades e grupos na internet. Há duas coisas que podem acontecer para uma série ser redublada, a primeira é que por decorrência de muito incêndios nas empresas de televisão na década de 60 e 70, fez com que boa parte desses produtos sumissem e também o mal cuidado com isso levando esse material a mofar em estúdios sem cuidado com o produto, levando-o a perca total, a segunda coisa que pode acontecer é a imposição das distribuidoras, que se justificam dizendo que o som está abafado, ruim, e querem um som digitalizado, ora, esses filmes não tiveram som digital nem na época que foram feitos!!! Como pode ela exigir isso da dublagem Brasileira? Um dos casos mais marcantes foi da trilogia de De Volta Para o Futuro, que originalmente foi conhecida com a dublagem da Bks nos anos 80/90, que passou na televisão por mais de 10 anos, de repente a distribuidora Mca é comprada pela Fox e em 2007 a Fox exige que seja redublada a série, sem mesmo chamar seus dubladores oficiais; Orlando Viggiani e Eleu Salvador; para redublarem a série, uma total falta de respeito com os fãs e com os dubladores, uma coisa lamentável. Nessa época os fãs começaram a comprar os Dvd’s e pegar na Internet com colecionadores o som original feito na Bks, mixar com Dvd e sair vendendo pela internet, pela revolta de ter apagado o passado de nós que vivemos essa época, e essa dublagem, como toda a produção, ter marcado como um todo para nós.

 

9. Os dubladores continuam tendo problemas de direitos quando a obra é lançada em outras mídias?

 

Com certeza, o descaso continua igual. Já dizia Nelson Machado: se o Borges de Barros fosse receber tudo o que ele tinha de direito, ele seria rico; Borges de Barros foi um grande dublador brasileiro que entre outros fez o Dr. Smith de Perdidos no Espaço e o Moe de Os Três Patetas, e morreu pobre em 2007. As pessoas às vezes pensam: mais tem dubladores que ganham bem apenas pelo trabalho; sim, concordo, mais são exceções, o grande pivô da coisa é que na lei diz que o ator deve receber toda a vez que seu trabalho for exibido, mas os distribuidores insistem em dizer que não existe essa lei para o dublador, como não? O dublador também não é ator e esse também não é um trabalho artístico que é exibido na Tv e no Cinema? São uns descasos absurdos que acontecem em nosso país, e aí lembramos daquela antiga história chamada Chaves, Marcelo Gastaldi, dono do extinto estúdio que dublou Chaves; a Maga; e dublador do personagem principal, não recebeu nada além do trabalho que foi cobrado por hora para fazer o personagem, no final da vida transferiu seu estúdio para a Marshmellow de São Paulo e tinha dívidas fortes nas costas. Faleceu novo, em 1995 e a família ficou passando fome, os amigos dubladores que davam dinheiro para eles, enquanto isso Sílvio Santos ganha por cada minuto de audiência de Chaves desde 1984, quer maior descaso que esse?

 

10. As melhores dublagens costumam ser de desenhos animados, não é verdade?

 

Dizem os dubladores que em desenhos eles tem mais liberdade de criar e improvisar, pois os desenhos não tem voz muito menos personalidade, e é o dublador que da isso a eles, tem até dubladores que acham que a única dublagem legitima seria em desenhos, pois são criações. Aqui no Brasil nós tivemos e temos verdadeiros astros da voz como Orlando Drummond, Silvio Navas, Guilherme Briggs, Mário Monjardim, Luís Manuel, Domício Costa, Carlos Marques, Alexandre Moreno, Selma Lopes, Sônia de Moraes, e muitos outros. Um causo muito legal de contar foi o que ocorreu nos anos 80 com o falecido dublador Cleonir dos Santos, o criador original de Denis o Pimentinha estava no Brasil com a esposa, e fez questão de ir à Herbert Richers conhecer o dono da voz do seu personagem, que era o Cleonir, dizendo: quando eu criei esse personagem a voz que eu tinha na minha mente era a sua, então eu vim especialmente para o Brasil lhe conhecer; Cleonir disse que ficou emocionado com isso, que essas pequenas situações fazem valer todos os anos de dublagem que ele fez.

 

11. Quem são os maiores nomes da dublagem brasileira na sua opinião?

 

Olha, tem muita gente, se for deixar eu fico aqui até amanha falando (risos). Eu acho que devemos falar dos grandes, que começaram toda essa história, entre eles temos Mário Monjardim, Domício Costa, Orlando Drummond, Antônio Patiño, Milton Luís, Sônia de Moraes, Carmen Sheila, Luís Manuel, Magalhães Graça, Borges de Barros, Helena Samara, Isaura Gomes, Garcia Neto, Nair Amorim, André Filho, André Luiz Chapéu, Carlos Campanile, José Soares, Nelly Amaral, Márcio Seixas, Nelson Machado, Darcy Pedrosa, Newton da Matta, Sumara Louise, e é claro os mais recentes Eduardo Borgerth, Guilherme Briggs, Affonso Amajones, Miriam Ficher, Ricardo Schnetzer, Mário Jorge de Andrade, Garcia Junior, Guilene Conte, Manolo Rey, Angélica Santos, Cecília Lemes, Wendel Bezerra, e essa garotada que ta hoje em dia arrasando como Luciano Monteiro, Matheus Perrisé, Charles Enmanuel, Bruna Laynes, Thiago Fagundes, e tantos outros. A nossa dublagem é muito rica de grandes profissionais, as pessoas tem que aprender a dar mais valor a ela.

Agradecimentos à Paulo Henrique da Silva e ao Jornal Hoje Em Dia pela entrevista.