Entrevistas

Entrevista com Alfredo Martins

 

Entrevista realizada em 7 de Agosto de 2012.

 

C.d: Primeiramente quero agradecer a oportunidade de entrevista-lo Alfredo, sei que você não é muito perito em computador, mas está fazendo um esforço pra responder as minhas perguntas, fico grato por isso. Alfredo, primeiramente queria que você falasse um pouco do seu início de carreira, sabemos que você fez vestibular na Puc de Campinas, e depois acabou voltando para o Rio e cursado Psicologia na Universidade Santa Úrsula. Conte-nos um pouquinho desse início até chegar a ser ator.

Alfredo: A história é outra. Sou carioca e comecei a trabalhar como ator, por mero acaso, em 1962, então com 15 anos de idade, na extinta TV Tupi, canal 6 do Rio de Janeiro. O acaso se deve por ter ido à emissora acompanhando um amigo, meu vizinho, que estava começando na TV. Ele estava indo lá receber um cachet e na saída, parou para conversar com colegas, e eu ao seu lado, até que chegou o José Carlos que fazia produção de elenco do programa “Show de Sorrisos”. José escalou os presentes no papo, ali na calçada, até que chegou pra mim e perguntou se eu gostaria de participar do quadro de lançamento de uma nova dança, o “Hali Gali”. Naquela época a profissão de Ator não era regulamentada, não existia formação nenhuma, bastava ter a oportunidade para iniciar uma carreira. Fiquei trabalhando na TV Tupi até 1978, participando do “Cassio Muniz Show”, “Grande Teatro Infantil” e algumas novelas, como “E Nós Aonde Vamos”, “O Doce Mundo de Guida” etc. Em janeiro de 78 fui convidado para uma participação na novela “O Astro” (1ª montagem), por acaso também participei da 2ª montagem, e não parei de trabalhar na TV Globo até hoje. Já participei de mais de 50 novelas e minisséries na Globo. Também fiz novelas na TV Futura e TV Record. Agora que estou fazendo 50 anos de carreira, penso que sou o ator brasileiro vivo que mais participou de novelas e minisséries na televisão brasileira. Gostaria muito que isso fosse checado.
 

Cartaz de O Astro de 1978


C.d: Você fez muitas peças de teatro, e faz até hoje. Cite-nos trabalhos que te marcaram, e fale-nos um pouco sobre sua carreira no teatro.

Alfredo: Só participei de uma peça até hoje, “Manoel Isidoro de Tal”, encenado na primeira inauguração do Teatro Casa Grande. Logo após, em 1966, ingressei na Petrobrás e ficou muito difícil arrumar espaço para o Teatro, pois desde 1963 já estava muito envolvido com a Dublagem, na Herbert Richers e outros estúdios do Rio. Também fazia Radio-Teatro na Radio MEC.

C.d: Nós temos informações que você teria começado na dublagem no final da década de 1960 na Riosom. Quando exatamente você entrou na dublagem, e quem foi que lhe convidou?

Alfredo: Comecei em Dublagem em 1963, quando fui me dublar na 1ª versão de “O Boca de Ouro”, produzido pela Herbert Richers, onde fiz uma pequena participação. Não parei até hoje. Também fui Diretor de Dublagem por mais de 10 anos. A Rio Som surgiu alguns anos depois, e tive a honra de ser um dos onze primeiros atores em dublagem contratados no Rio, não sei se no Brasil. A Herbert Richers só veio contratar alguns anos depois.
 

O Boca de Ouro, de 1962


C.d: Você se lembra do seu primeiro personagem fixo em algum filme ou série? Nós nos lembramos de William Henry em Mares da China, ao lado de Domício Costa, Sônia de Moraes e Paulo Pereira, acreditamos que foi um de seus primeiros trabalhos, se recorda disso?

Alfredo: Realmente não recordo dos primeiros trabalhos em dublagem porque a produção, na época já era significativa. Lembro de algumas séries em que tinha fixos, como “O Homem de Virgínia”, “Culpado ou Inocente”, “Soldados da Fortuna” etc na Herbert Richers. Na Rio Som fazia “O Homem Aranha” dublava o próprio desde o seu lançamento e foi assim por mais de 20 anos, “Daktari” famoso por seu leão vesgo...etc.

C.d: Nos anos de 1970 você se tornou conhecido por ter dublado um famoso longa-metragem Disney, Bianca e Bernardo, fazendo o Bernardo. Como era trabalhar com Telmo Avelar, esse monstro sagrado da Disney? E como foi dublar esse longa?

Alfredo: Telmo era, na época, o melhor diretor de dublagem de filmes para cinema. A Disney exigia a direção dele nos seus filmes e eram todos dublados na Tecnisom, que funcionava no Museu de Arte Moderna, no Aterro do Flamengo. Tanto Telmo como a Tecnisom, que hoje se chama Delart, apresentavam um trabalho final de excelente qualidade. Aprendi muito com ele e tenho a sorte de trabalhar com Telmo até hoje. A dublagem naquela época era muito mais difícil e trabalhosa, não existiam as facilidades da computação que temos hoje, era verdadeiramente artesanal.
 

Bernardo e Bianca (1976)


C.d: Sobre a Herbert Richers, muitos dizem que você só começou a trabalha na empresa nos anos de 1990. Quando você ingressou na Richers?

Alfredo: Comecei na Herbert Richers em 1963.

C.d: Tinha um ator que eu gostava muito que você dublava que se chamava Arturo Peniche, se lembra dele? Você o dublou em A Alma Não Tem Cor e em uma participação em A Usurpadora. Pra mim era um dos atores que mais a sua voz casava. Você vê alguma diferença nas dublagens de novelas e filmes?

Alfredo: Não me lembro de Arturo. Já não tenho idéia dos milhares de atores que dublei até hoje. Dublar novelas latinas é mais difícil. Temos de ter o cuidado para não sermos influenciado pela forma usual de interpretação deles, é mais incisiva, mais dramatizada, o que seria para o nosso publico algo muito canastrão.
 

Arturo Peniche


C.d: Donald Sutherland talvez tenha sido o seu maior presente na dublagem, pois é um ator gabaritado e famoso, e coincidentemente começou a carreira como ator na mesma época que você começou como dublador, poderia tê-lo dublado desde jovem, já que a sua voz nele casa de forma tão perfeita (risos). Quando você começou a dublar o Donald? E você gosta de dublá-lo mais do que outros atores?

Alfredo: Gosto muito de dublar o Donald, penso que comecei a dublar ele no filme “MASH”, ou será que estou enganado?
 

Donald Sutherland


C.d: O que não era pra ser diferente, em seu currículo você tem diversos atores que dublou, entre os já citados temos John Spencer, Robert Forster, John Cleese, Eugene Levy, Kevin Spacey, Terence Stamp, entre outros. Quais atores e trabalhos que lhe vem à memória, e que pra você foram importantes?

Alfredo: Todos esses que você citou foram importantes, mas não posso esquecer de Frank Sinatra, Phill Colins, “Sir” Ben Kingsley em Ganghi, vencedor de 8 Oscar, e muitos outros.

C.d: Você dublou uma série que particularmente eu gosto muito, se chama Kenan e Kel, aonde você fazia o pai do Kenan, um cara alto e careca, se chamava Roger Rockmore. O que você acha de fazer comédias? Acha que se sai bem? Eu particularmente achava a dublagem do Roger muito engraçada, aquele jeito todo espontâneo e exaltado dele, você passava muito bem.

Alfredo: Comédia é realmente o estilo mais difícil de se fazer. Mas com o tempo, fui fazendo vários filmes e séries, como também já participei de vários programas da “Turma do Didi” da TV Globo.
 

Roger Rockmore, interpretado por Ken Foree


C.d: Você tem uma filha na dublagem, a Fabíola Martins. Ela me disse que entrou bem nova na dublagem, saindo pouco tempo depois e retornando já adulta. Foi você que sugeriu que ela começasse a dublar, ou por ver o pai trabalhando ela se interessou e decidiu tentar essa arte?

Alfredo: Tenho 3 filhos, Fabiola, Leonardo (Leo Martins) e Ana Paula Martins, todos trabalham também com dublagem, são atores profissionais e começaram por vontade própria, talvez por gostarem do trabalho que viam quando iam aos estúdios comigo. Leo também é Musico, formado na UNIRIO.

C.d: Alfredo, você que está desde o início da dublagem no Brasil, qual a sua cotação de tudo o que se passou nesse tempo, o que melhorou, o que piorou, e como você vê o mercado hoje em dia?

Alfredo: A tecnologia transformou totalmente o mundo da dublagem, melhorou muito a qualidade do som e imagem, a velocidade em que se realiza o trabalho, mas quanto a qualidade artística, como hoje todos gravam separadamente, penso que caiu muito.

C.d: Eu vou deixar essa última pergunta a seu critério. O que você gostaria de ter falado nessa conversa que não foi perguntado? Algo que você queira expor aos seus fãs, e são muitos os que gostam da sua voz, ou apenas algo para acrescentar de tudo o que foi dito. Fique a vontade.

Alfredo: Agora em setembro, faço 50 anos de profissão, são muitas as histórias, penso que daria um livro. Mas a minha vida como Psicólogo não ficou clara, vou esclarecer. A situação financeira dos atores no Brasil sempre foi bastante instável, ainda é até hoje. Em 1966, fui convencido por amigos a fazer concurso para Petrobras, passei e como trabalhava em turno de 6 horas, não atrapalhou muito a minha vida artística. Em 1969, voltei a estudar e fui fazer Psicologia na Universidade Santa Úrsula no Rio. Em 1973, transferido pela Petrobras para Campinas, SP, fiz 1 ano na PUC-Campinas, onde me formei em Licenciatura em Psicologia e no ano seguinte voltei pro Rio e pra Santa Úrsula, onde me formei Psicólogo. Me aposentei como Psicólogo da Petrobras mas mantenho até hoje o consultório, onde atendo uma vez por semana. Frequentemente faço cursos de Pós graduação para me manter atualizado.

C.d: Alfredo, eu quero te agradecer imensamente pela entrevista, e também pelo intermédio da Fabíola, que foi simpaticíssima comigo desde a primeira vez que conversamos.

Alfredo: Foi um prazer, me coloco à sua disposição para outros esclarecimentos, um abraço...

Agradecimentos à Fabíola Martins, que mediou essa entrevista entre o Casa da Dublagem e Alfredo Martins.